As influências por trás do Frankenstein de Guillermo del Toro

Quando Guillermo del Toro anunciou sua versão de Frankenstein, ficou claro desde o início que não se trataria apenas de mais uma adaptação do romance de Mary Shelley. Del Toro nunca foi um diretor interessado no monstro como simples ameaça; o que o fascina é a criatura como símbolo de abandono, dor e humanidade ferida. E isso diz muito sobre as influências que moldam sua visão.

A base literária, claro, é Mary Shelley — especialmente o Frankenstein original, muito mais filosófico e melancólico do que a maioria das versões cinematográficas. Del Toro sempre destacou que o verdadeiro terror do livro não é o monstro, mas a irresponsabilidade de Victor Frankenstein. Essa leitura ética e trágica está alinhada com toda a filmografia do diretor, de O Espinhaço do Diabo a A Forma da Água.

No cinema, a influência mais evidente vem dos clássicos da Universal, principalmente o Frankenstein de 1931 e A Noiva de Frankenstein (1935). Mas não apenas pela estética expressionista — e sim pela dignidade trágica concedida à criatura. Del Toro herda essa tradição de enxergar o monstro como alguém que sofre por existir num mundo que o rejeita.

Já nas artes visuais, uma referência fundamental é Bernie Wrightson. O ilustrador revolucionou a forma como o monstro de Frankenstein é representado, especialmente em suas ilustrações para a edição de Frankenstein publicada nos anos 1980. Wrightson combinava um detalhismo quase cirúrgico com uma sensibilidade profundamente humana. Seu monstro é grotesco, sim — mas também frágil, cansado, solitário. Essa dualidade dialoga diretamente com o olhar de del Toro sobre criaturas marginalizadas.

Outra influência recorrente é o gótico romântico, tanto literário quanto pictórico: castelos em ruínas, laboratórios decadentes, corpos remendados que carregam uma poesia triste. Del Toro não separa horror de beleza — ele os funde. O feio nunca é gratuito; é sempre carregado de significado emocional.

No fim, o Frankenstein de Guillermo del Toro promete ser menos uma história sobre criar vida e mais uma reflexão sobre o que fazemos com aqueles que criamos — e abandonamos. Um filme moldado por Shelley, pelo expressionismo, pelo horror clássico… e pela sombra elegante e melancólica de Bernie Wrightson pairando sobre cada parafuso, cicatriz e olhar vazio da criatura.